domingo, 18 de janeiro de 2015


Miguel Torga morreu há 20 anos

Bottelho (1964-)


Por Maria Ramos Silva
publicado em 17 Jan 2015 - 14:00

Artigo publicado no jornal i pela filha de Miguel Torga.

São Martinho da Anta, Coimbra, e todo esse país que escreveu, assinala hoje os 20 anos da morte do homem que deu voz à planta que vinga na rocha

Desabafo num apontamento necrológico no "Diário I", a 3 de Dezembro de 1935: "Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era." Pode o autor dessas linhas gozar o repouso da eternidade sem sobressaltos. Ninguém esqueceu a "Mensagem" do poeta. Como ninguém esqueceu as prescrições do senhor doutor, os seus ecos do Marão, da terra, das gentes rurais, das searas, das vinhas, da natureza em movimento perpétuo. Ninguém esqueceu a voz inconformada de um país rochoso, com muita pedra por partir; um Portugal feito cântico em cada linha. O mesmo que demorou a entender a raiz humana desses "Bichos" (1940), nascidos para lentidão de uma polícia política sem génio para ler, quanto mais nas entrelinhas.

Pode descansar o rústico ilustre que colaborou e rompeu com a revista "Presença", que se estreou na poesia com "Ansiedade", pelos 20 anos, que deixou matéria para generosa antologia, que martelou as teclas da máquina ao serviço da prosa, que assinou peças para os palcos, que actualizou os seus diários com memórias e crítica social até vésperas da despedida. Dividiu a vida entre a especialidade de otorrino e a literatura, a narrar recordações, a infância em Trás-os-Montes, as paisagens, a primeira viagem por uma Europa dominada pelo fascismo, o encontro com exilados em Paris, a luta contra o Estado Novo, a guerra civil espanhola, a sua experiência atrás das grades durante o regime de Salazar. Momentos fixados pelo primeiro escritor a receber o Prémio Camões (1989) em "A Criação do Mundo", registo em vários volumes, de carácter biográfico com elementos fictícios, que começou a imprimir em 1937, e que se estendeu até 1939, aqui e ali "esmagado pela bota opressora" da censura, fruto das "ideias subversivas" que lhe mostraram o caminho para o isolamento no Aljube. "Em matéria literária, o meu desespero nunca desespera", confessa o escritor, que entre 1942 e 1943 assume o risco e continua a editar-se a si próprio.

Texto  completo AQUI.

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (1907-1995).

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