quarta-feira, 23 de abril de 2014


No meio dos livros



imagem:Fine Art America

Autor : Marçal Grilo*

Eu vivo hoje no mundo dos livros, mas não nasci no mundo dos livros. [...] Há umas pessoas que dizem que começaram a ler umas coisas fantásticas. Eu comecei a ler as coisas mais normais deste mundo: Emilio Salgari, O Corsário Negro e Sandokan. Depois, passei obviamente para os livros policiais: li o Ellery Queen, a Agatha Christie, Erle Stanley Gardner, Michael Z., Lewin, li praticamente toda a coleção Vampiro. Nunca li o Cavaleiro Andante. Tinha a total aversão a tudo o que era folhetos, tudo o que era coisas em folhetins. Tinha um amigo que quando acabavam as séries do Tintin ou do Blake and Mortimer trazia-mos e eu lia todos seguidos.

Quando tinha talvez uns dezasseis anos, tive um professor de filosofia que era um homem muito culto e que uma vez me disse uma coisa que eu nunca esqueci – eu tinha a mania dos automóveis e das mecânicas, por isso é que fui para engenheiro mecânico - «Essas coisas da matemática, da física, tudo isso é muito importante, mas tu tens que ler outras coisas.»[...] Li o Somerset Maugham com Um Casamento em Florença, As Férias de Natal, As histórias dos Mares do sul, o Biombo Chinês e Agente Britânico. Li os três livros do Albert Camus mais famosos que eram A Peste, O Estrangeiro e O Exílio e o  Reino. Li o Pierre Marc Orlean, com La Bandera. Li a Porta Estreita, do André Gide. Li O Velho e o Mar como não podia deixar de ser, do Hemingway. Li O Génio e a Deusa do Aldous Huxley e fiquei com a ideia de que, para além do mundo das engenharias, em que eu pretendia entrar, havia um outro mundo muito fascinante, que era o mundo da literatura, para a qual eu nunca tive qualquer espécie de preparação.

Hoje verifico, ao fim deste tempo e tendo alguns hábitos de leitura, que leio por três razões essenciais: leio por prazer, leio por necessidade e leio por interesse.  Penso que ler é como andar. É poder viajar no espaço e no tempo e eu viajo muito no espaço e no tempo. Isto é, sou capaz de me mover nos livros, gosto daquilo que se faz hoje muito que é navegar na Net. Gosto muito de navegar nos livros, gosto de andar de livro em livro.[...]

Eu não tenho propriamente uma biblioteca, tenho cerca de quatro mil obras, mas não considero uma biblioteca: tenho livros. Gosto muito de estar no meio dos livros, tirar um e tirar outro. E Pennac, relativamente a este debicar do livro, quando fala deste direito, do direito de saltar de livro em livro, diz uma coisa engraçadíssima, «assim podemos abrir Proust, Sakespeare ou a Correspondance de Raymond Chandler e em qualquer página, debicar aqui e ali, sem correr o mínimo risco de deceção. 

O livro tem uma vantagem enorme sobre muitos outros meios porque nunca nos maça. Qando nos maça, nós fechamo-lo. E ler é um ato de liberdade em que a leitura aparece sempre com um ato de criação permanente.[...]





* Na época, Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian; ex-Ministro da Educação.

Excertos da sua comunicação no Congresso Internacional de Promoção da Leitura, em Janeiro de 2009 [transcrição da gravação]

Adaptado à nova grafia.


Ver também Marçal Grilo (1942) AQUI.

Sem comentários: