domingo, 12 de janeiro de 2014


Leituras ao acaso: sem título


"Traços densos sulcam o papel, tão unidos que formam uma pasta de espessura sem falhas. Cristais microscópicos de lápis faíscam, dão à superfície negra o fulgor de certos minérios. Corpos compactos, do mesmo tamanho (refiro-me aos camponeses). Gestos dum ritual perto do fim: braços que pendem, para equilibrar a marcha, pernas flectidas torneando os rochedos, dificilmente, a caminho da água. 

Os bichos, esses, variam de corpulência. Carneiros maiores que bois; cavalos de rastos, como serpentes. Mas não custa muito reconhecê-los. Pelas cabeças: chifres retorcidos, cornos de curvatura só insinuada, crinas erguidas ao céu. Tudo isto a arder em vários tons: roxo com vermelho por cima, laranja, açafrão, tijolo. 

Nas cabeças humanas o fogo é mais intenso, as chamas mais altas, e a disposição das cores (sobrepostas com fúria) esconde tons indecifráveis. Aproximo, afasto a lupa (várias vezes), tentando surpreendê-los. Não consigo. Um incêndio uniforme paira a dois ou três metros do chão, e conduz os corpos (já carbonizados? apenas com sede?) à gota azul da lagoa. 

Na primeira zona de areia (parte inferior do desenho), grãos com a altura, a rugosidade, dos penedos (castanho-rubro-arroxeado). A seguir, um pouco por toda a parte, gramíneas emaranhando-se ao acaso. Tufos (muito azul-algum verde) sem o arrumo das plantas reais que se abrigam na margem da lagoa onde a água tem mais profundidade; patas de aranha, inúmeras, peludas: riscos à pressa contra os grânulos do papel; e o felpo, o resíduo, doutros riscos menores (laterais) que o lápis a tropeçar deixa atrás de si. 

Na zona superior do desenho, aves pairam sobre as dunas. Cores que se opõem à violência do resto (a nesga de zinco, muito longe, não as perturba). Substâncias claras; talvez um esboço de nuvens."

in Carlos de Oliveira, Finisterra: paisagem e povoamento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003


Via Teresa Atouguia (facebook)










Carlos de Oliveira (1921-1981)

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