segunda-feira, 2 de dezembro de 2013


Leituras ao acaso: Os novos monstros

Texto de : Ana Cristina Leonardo, Expresso| Atual, 23-11-2013

Antecipo o pesadelo: vem aí o Natal. Não, não vou falar de pobres. Nem sequer dos a fingir. Também não vou falar de Paul Auster, nem de Nietzsche ou de flores de plástico. Vou abster-me de todas as variações sobre o tema: "Tive de fazer um downsizing do meu lifestyle." Citando Cesariny, a quem um dia ouvi dizer que poucas são as coisas que valem uma carcaça (e falava o poeta em sentido literal), "porque assim como assim ainda há muita gente que come". Alinhavo umas linhas sobre crianças. Eu própria, quando criança (porque sendo da terceira voz e desafinada me impediam de cantar no coro da festa escolar natalícia), tive o privilégio de dizer a solo "A Balada da Neve", forma de compensação da dissonância voluntária que me permitiu memorizar o poema (até hoje): "Mas as crianças, Senhor/porque lhes dais tanta dor?!/Porque padecem assim?! Etc. Eram os tempos da dickensiana "Menina dos Fósforos". Hoje, com crise e tudo, domina a anafada Popota. E assim os veremos dentro em pouco tempo, berrando pelos supermercados e centros comerciais, escolhendo brinquedos que antigamente eram trazidos pelo Pai Natal ou pelo Menino Jesus e que agora qualquer petiz, mesmo de fraldas,  perceberá serem comprados pelos progenitores a pronto ou a crédito (conforme o downsizing do lifestyle de cada um).Transformados os adolescentes em consumidores (erigida a cacofonia hormonal própria da idade em desarranjo mental medicável), eis chegada a hora de alargar o conceito ao elo mais fraco da cadeia consumista. "O meu filho de quatro anos já descarregou 200 jogos para o tablet!", diz o pai babado do seu filho míope.  O que lhe iraá oferecer no Natal?Um drone? Uma caixa de metilfenidato? Um voucher para psiquiatria?

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