segunda-feira, 23 de setembro de 2013


Faleceu António Ramos Rosa (1924-2013)


imagem: Público



A Leitora 

A leitora abre o espaço num sopro subtil. 
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície 
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro. 
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde" (1986)


Fonte: Citador
Outras ligações: Biografia de António Ramos Rosa

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