domingo, 14 de julho de 2013


Impossível voltar a página



via Presseurop - texto de Forian Hassel - 2013-07-12

Destruída durante a guerra da Bósnia, a Biblioteca Nacional de Sarajevo acaba de ser reconstruída com a ajuda da UE. Mas, quase 20 anos depois do conflito, esse símbolo do Estado multiétnico continua assombrado pelos fantasmas do ódio. Excertos.


Se Kanita Focak tivesse de escolher o livro da sua vida, sentiria grande dificuldade. Seria o Decâmeron, o conjunto de novelas escritas por Bocácio no século XIV? Um dos romances de Salman Rushdie? Ou então A Ponte sobre o Drina (ed. Cavalo de Ferro, 2007), do prémio Nobel da Literatura jugoslavo Ivo Andrić? No que diz respeito a lugares, em contrapartida, Kanita Focak não hesita: o lugar da sua vida é a Vijećnica, a antiga Biblioteca Nacional da Bósnia-Herzegovina e símbolo da sua capital, Sarajevo. Os manuscritos, os livros, os mapas e os jornais cobrindo um período de seis séculos, escritos em latim, inglês, turco, árabe, russo, persa, alemão e italiano, mas também os muitos concertos e exposições que ali são realizados e que fazem daquela biblioteca o reflexo da Bósnia multiétnica.
Kanita Focak tem 59 anos. “Os grandes acontecimentos da minha vida estão ligados à Vijećnica”, confidencia. Kanita Focak aprendeu desde muito cedo a amar as línguas e a literatura, a pintura e a arquitetura. Aos 16 anos, a jovem rapariga com ar de Grace Kelly morena já devorava livros sobre a arquitetura da Renascença e as obras de Dante e de Bocácio nas salas de leitura apaineladas da Vijećnica. Depois, Kanita, a católica, conheceu Farouk, o ourives muçulmano dez anos mais velho do que ela. Os dois pombinhos encontravam-se na Vijećnica – na sala de leitura, nos dias de chuva, sob os mármores do átrio quando havia sol. As duas famílias opunham-se ao namoro – mas os dois apaixonados resistiram. [Casaram no final da década de 1980]. O recém-casado casal foi morar para a casa da família de Farouk, mesmo em frente à Biblioteca Nacional.
A felicidade não durou muito tempo. Em 1991, a guerra rebentou na Croácia e em menos de um ano chegou à Bósnia. Numa tarde do início de abril de 1992, a artilharia sérvia disparou os primeiros obuses a partir das verdejantes colinas que rodeiam Sarajevo. Rapidamente, o Parlamento da Bósnia e o Conselho Constitucional são consumidos pelas chamas. Nos anos seguintes, um dos instigadores intelectuais da guerra era alguém que tinha estado lado a lado com Kanita Focak na sala de leitura da Vijećnica: Nikola Koljević, especialista em Shakespeare na universidade de Sarajevo. O professor deixa-se enredar pela ideologia dos nacionalistas sérvios, segundo a qual estes eram chamados a reconstruir a “Grande Sérvia”, a expulsarem as outras populações do seu território, a destruir o seu património. Durante a guerra, Nikola Koljević, representante do líder sérvio Radovan Karadžić, participou na orquestração da campanha de expulsão e de aniquilamento.
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