quinta-feira, 21 de março de 2013


O poeta


imagem Flickr



Umberto Saba, 1883-1957

O POETA

O poeta tem os seus dias
contados,
Como todos os homens, mas quanto, 
quanto mais variados!

As horas do dia e as quatro estações, 
um tanto menos de sol ou mais de vento,
são o devaneio, o acompanhamento
sempre diverso para as suas paixões,
sempre as mesmas; e o tempo que faz,
ao levantar-se, eis o grande acontecimento
do dia, sua alegria assim que desperta.
Nada como as luzes contrárias o alegra,
nada como os belos dias
movimentados,
e em longas histórias multidões imersas,
onde o azul e a tempestade duram pouco,
onde se alternam searas de infortúnio
e de vitória.
Com um rubro crepúsculo se entusiasma; 
e com as nuvens muda de cor,
ainda que lhe não mude a alma.
O poeta tem os seus dias
 contados,
como todos os homens; mas quanto,
quanto mais abençoados!

                           "Il poeta", Trieste e una donna (1910-1912)

in Colóquio Letras: Vozes da poesia europeia - III,trad. David Mourão Ferreira. Lisboa:FCGulbenkian, nº 165, 2003.

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