quarta-feira, 26 de setembro de 2012


Rudes e breves as palavras pesam



               “Tosca e rude poesia, meus versos plebeus são corações fechados, trágico peso de palavras como um descer da noite  aos descampados.”
Carlos de Oliveira (1921-1981)


   SONETO

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.



Ilust. Rogério Coelho
in  "Cantata", Trabalho poético (2001) de Carlos de Oliveira.
Lisboa:Circulo de Leitores. p.161

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