sexta-feira, 6 de abril de 2012


Soneto da Chuva

                                                            Carlos Botelho,  Lisboa
                               

Poema de Carlos de Oliveira (1921-1981)


Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se farta das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.


Carlos de Oliveira nasceu em Belém (Estado do Pará, Brasil), mas cedo veio para Portugal onde se licenciou em História e Filosofia pela Universidade de Coimbra. Aos longo dos anos 40 viveu o movimento  neorrealista nesta cidade. Na sua poesia podem identificar-se duas épocas, a segunda menos comprometida com a ideologia neorrealista e mais preocupada com questões estéticas: a linguagem e a harmonia do poema ou da prosa.  Perfeccionista, Carlos de Oliveira corrigiu de forma obsessiva a sua obra ao longo da vida e destruiu de forma deliberada todos os textos que teriam permanecido inéditos.
Em fevereiro de 2012, o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira,  recebeu o espólio do escritor, constituído por cerca de 9000 documentos.


in Tabacaria: revista de poesia e artes plásticas - Casa Fernando Pessoa. Lisboa:Contexto, 1997, nº 4, pp. 61-64.
ligação: MNR- Neorealismo

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