segunda-feira, 23 de abril de 2012


O silêncio dos livros



Como definir um livro? A história da escrita e da literatura mostra-nos que o “livro” ao longo da história já assumiu muitas formas e suportes.  Tabuinhas, placas de cera ou cerâmica,  pergaminho, continham leis, prescrições médicas, transações comerciais, lendas,  crónicas de heróis, individuais ou coletivos. O digital, o mais recente suporte, apesar de muitas reações adversas tem avançado de forma exponencial nos mercados, dada a preferência cada vez mais crescente dos leitores pelo livro eletrónico. Não vamos agora aqui debater o livro impresso nem o digital - esse é um tema a que Umberto Eco apelida “vexata quaestio” (Eco, 2003) e não podemos estar mais de acordo sobre isso.  Reivindicamos, porém, a liberdade de optar, isto é, de poder selecionar o suporte que nos dá mais conforto, o que nos apraz tocar e folhear ou o que nos é mais vantajoso transportar.

Mas o livro, um objeto com uma história de vida tão recuada no tempo, encerra em si mesmo  uma  natureza frágil e efémera. George Steiner afirma: “Temos tendência a esquecer que, por serem altamente vulneráveis, os livros podem ser suprimidos ou destruídos. Como as demais produções humanas são portadores de uma história, história essa cujos primórdios continham já em germe a possibilidade ou a eventualidade de um fim” (Steiner, 2006, p.7). Assim, a censura e a destruição física dos livros, segundo o autor, ”atravessam como um veio vermelho toda a história do catolicismo romano”, da qual fazem parte o índex das obras proibidas e o imprimatur. A história sanguinária dos séc. XIX e XX da Europa e da Rússia  mostram-nos que a censura continua a manifestar-se. Na Rússia, os poetas futuristas apelam à destruição das bibliotecas pelo fogo, sendo estas símbolo das elites ou santuários de línguas mortas, tornando assim imprescindível o corte com o passado para a necessária renovação das ideias. Na Alemanha nazi, as elites mantêm a cumplicidade para com a cultura elevada a par do repúdio pela obra degenerada.

Se o livro eletrónico prevalecer sobre o livro impresso, qual será o futuro das bibliotecas? Que efeitos terá a revolução virtual sobre o futuro leitor, sobre o processo de leitura, e outras operações do intelecto como a vontade, a concentração. Esta e outras questões são colocadas por GS em O silêncio dos livros, autor "pessimista" para alguns, mas um dos grandes pensadores da atualidade e um “mestre de leitura”, título que ele reivindica para si mesmo.


Steiner, George (2006). O silêncio dos livros, trad. Margarida Sérvulo Correia. Lisboa: Gradiva.
Eco, Umberto (2003). Sobre literatura, trad. José Colaço Barreiros. Lisboa: Difel.

Sugestão de ligação: presseurop, 24-04-2012 (entrevista com GS: o silêncio e o ato criativo)

Sem comentários: