domingo, 4 de março de 2012


Canção do dia que parte

de Federico García Lorca (1898-1936)

Que trabalho me custa
deixar-te partir, dia!
Vais-te cheio de mim,
voltas sem conhecer-me.
Que trabalho me custa
deixar sobre o teu peito
possíveis realidades
de impossíveis minutos! 

Na tarde, um Perseu
lima tuas correntes,
e foges sobre os montes
ferindo-te nos pés.
Não podem seduzir-te
minha carne ou meu pranto,
nem esses dias onde
dormes a sesta de ouro.

De Oriente a Ocidente
levo tua luz redonda.
Tua luz que sustenta
minha alma, em tensão alta.
De Oriente a Ocidente,
que trabalho me custa
levar-te com teus pássaros
e teus braços de vento!

 in  Federico García Lorca :Obra Poética(2007), trad. e notas de José Bento. Lisboa: Relógio D´Água. p.233.

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