sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


A biblioteca ideal



«O amor às bibliotecas, como a maior parte dos amores, há que aprendê-lo. Quem entra pela primeira vez numa sala feita de livros não pode saber instintivamente como comportar-se, saber o que se espera dele e o que lhe é permitido. Pode ver-se dominado pelo horror - à acumulação ou à grandeza, ao silêncio, à consciência falsa de que se é ignorante, à vigilância - e parte dessa sensação enganadora pode nunca se desprender dele, mesmo aprendidos os rituais e as convenções, uma vez cartografado o território, uma vez comprovada a atitude amistosa dos nativos.»[trad. nossa do castelhano]

Alberto Manguel é admirador confesso de bibliotecas. Na aba do seu livro Bibliotecas (Março, 2011), podemos ler ainda o seguinte:
«Con la temeridad de la juventud, mientras mis amigos soñabam com hechos heroicos en el campo de la ingeniería o el derecho, las finanzas o la política nacional, yo soñaba con llegar a ser bibliotecario. La inercia y una mal reprimida afición a los viajes decidieron otra cosa. Hoy, sin embargo, cumplidos los cinquenta e seis años ("la edad", como afirma Dostoyevski en El idiota, "a la qual puede decirse con rázon que comienza la verdadeira vida") he vuelto a ese temprano ideal y, aunque no puedo decir que sea propriamente bibliotecario, vivo entre estanterías cada vez más numerosas cuyos límites comienzan a desdibujarse o a coincidir con los de la casa.»

"La biblioteca ideal" constitui a apresentação de Bibliotecas, a obra já referida de Alberto Manguel (1), publicada a 1 de março de 2011, por ocasião da inauguração da Biblioteca y Filmoteca em Pamplona, organizada com base em excertos autorizados da obra La biblioteca de noche(s/d), Alianza Editorial. Transcrevemos algumas das afirmações do autor sobre o que ele considera que é ou deveria ser a biblioteca ideal:


A biblioteca ideal está destinada a um leitor em particular. Cada leitor deve sentir que é ele o eleito.

À entrada da biblioteca ideal está escrita uma variante do lema de Rabelais, LYS CE QUE VOUDRA (LÊ O QUE QUISERES).

A biblioteca ideal contém principalmente livros, mas não só. A biblioteca ideal contém também mapas, pinturas, objetos vários, música, vozes gravadas, vídeos, películas, fotos.[…]É um centro de leitura no sentido mais amplo do termo.

A biblioteca ideal pode ser simultaneamente virtual e material. Permite o uso de qualquer tecnologia, qualquer suporte, qualquer manifestação de um texto.

A bibloteca ideal é de fácil acesso. Não tem escadas íngremes, pátios escorregadios, confusão de portas, agentes de uniformes entre o leitor e os livros.

A biblioteca ideal permite acesso a todas as prateleiras. E todo o leitor deve ter a liberdade de ter encontros fortuitos.

Nenhuma secção da biblioteca ideal é absoluta.

A biblioteca ideal promete aos leitores todos os livros possíveis.

O mapa da biblioteca ideal é o seu catálogo.

Todo o livro na biblioteca ideal traz o eco de outro livro.

A biblioteca ideal permite o acesso fácil a comida , bebida e fotocópias.

A biblioteca ideal não tem horas de fechar.

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[1]Alberto Manguel, cidadão canadiano, nascido em Buenos Aires em 1948. Viveu em Itália, Reino Unido, Tahiti e Canadá. Reside atualmente em França. Escritor multifacetado, a sua obra - ensaio, romance, crítica literária, tradução e edição - tem-lhe granjeado merecida reputação internacional.
Algumas obras importantes: Uma história da leitura, No bosque do espelho, Notícias do estrangeiro, Diário de leituras, Com Borges, entre outras, quase todas editadas em Portugal.
Manguel, A.(2011). Bibliotecas. Gobierno de Navarra, pp. 11-17 [não está editado em Portugal]

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