sexta-feira, 2 de setembro de 2011


Da vida das bibliotecas


Bibliotecas cheias de fantasmas, de Jacques Bonnet, publicado em 2010 pela Quetzal Editores, é (como se pode ler na contracapa) um livro para quem gosta de livros. Para bibliotecários. Para livreiros. Leitores fanáticos que perseguem livros quando são perseguidos pela fome de ler. Para devoradores de livros que nunca desistem. Para todos os que acham que os fantasmas se escondem nas bibliotecas.

O autor confessa-se dono de uma monstruosa biblioteca, fazendo parte de uma confraria que coloca mais questões do que respostas. Na verdade, apesar de ser um problema que vai ser resolvido com a internet e os ebooks, como prevê JB, quem possui uma biblioteca com várias dezenas de milhares de obras tem diante de si problemas de ética e de ideologia, porque a afinidade entre os autores deveria ser tida em conta quando arruma dois autores lado a lado. E, depois, Jacques Bonnet acredita que as bibliotecas estão cheias de fantasmas: as personagens fictícias, seres reais que os leitores conhecem bem, porque permanecem imutáveis na sua essência ao longo dos tempos, e os seus autores, de quem sabemos, afinal, tão pouco, e que nos surpreendem tanto como qualquer personagem fictícia. Quantas vezes as suas biografias não são imaginárias?

Mas donde nos vem esta fome de leitura que nos leva a construir bibliotecas? Uma das causas possíveis é a tradição familiar. Jacques Bonnet conta-nos num excerto que transcrevemos:

«No meu caso, houve a descoberta da leitura, que foi como um raio de luz na atmosfera sombria de uma infância passada na província, nos anos 60. Haverá alguém que cante um dia o tédio dessa época, quando os chefes de família reconstruíam a economia francesa - sem deixarem de se servir pelo caminho - e as mulheres e crianças viviam como no século XIX? Os "Trinta" não foram gloriosos para toda a gente! As mulheres já podiam votar, mas só tinham existência jurídica se fossem casadas. Recusavam-lhes, por exemplo, o direito de assinar um cheque. Numa certa pequena burguesia, elas limitavam-se a cuidar das crianças e do lar, recebendo do marido, quando este para isso se dispunha, o dinheiro necessário à manutenção da casa. Quanto às crianças, estavam permanentemente confrontadas com o princípio da autoridade (para dar um exemplo, em 1967 ainda era proibido levar um jornal diário, Le Fígaro, Combat ou Le Monde, para um liceu do Estado francês). As conversas em família eram raras e as decisões dos progenitores não primavam pela racionalidade. O tédio da infância só podia ser combatido se enveredássemos pelo desporto e pela leitura. Esta última tinha qualquer coisa do rio edénico com quatro cabeças, partindo à descoberta dos quatro horizontes. Na leitura não havia distâncias. Através dela, podia transportar-me instantaneamente para as regiões mais afastadas, onde prevaleciam os costumes mais estranhos. A mesma coisa com o tempo: bastava abrir um livro para deambular pela Paris do século XVII, correndo o risco de levar na cabeça com o conteúdo de um penico, ou então podia defender as muralhas de uma Bizâncio prestes a cair às mãos dos otomanos, ou passear em Pompeia na véspera do dia em que foi sepultada por uma torrente de lava e cinzas. A dada altura, apercebi-me de que os livros não eram apenas um meio de evasão salutar, mas que eles continham igualmente os instrumentos que permitem decifrar a realidade circundante.» [...]

E ficamo-nos por aqui. Acreditamos que todos os que fazem da leitura e dos livros uma forma de estar e de ser encontrarão nesta obra alguma ressonância.

Bonnet, Jacques(2008), Bibliotecas cheias de fantasmas, trad.José Mário Silva.Lisboa: Quetzal Editores, cop. 2010, pp.20-22.

Acesso à obra em Lisboa: Palácio Galveias e Bib. David Mourão Ferreira.



2 comentários:

Maria José Vitorino disse...

Olá! É bom ler de novo aqui no blog mais uma sugestão de leitura. O livro existe nas bibliotecas municipais de Lisboa: um nas Galveias, outro na David Mourão Ferreira. Vou tentar pedir emprestado e deliciar-me com esses fantasmas. Brrr...

BE_ARROIO disse...

Olá MJV!Requisitar é a alternativa, que os tempos não estão para outra coisa.