sexta-feira, 3 de junho de 2011


Pedaços da Pátria

Este ano lectivo, na aula de Português, Camões, Fernando Pessoa, Sttau Monteiro e Saramago, falaram do Portugal do seu tempo… e nós, alunos do 12º ano das turmas G, K, J e L, depois desta nossa viagem com Eles, através dos séculos, juntámo-nos a José Gil, a Eduardo Lourenço e à Imprensa, em geral, para nos pronunciarmos sobre a deleitosa Pátria nossa amada, no século XXI…

Aqui ficam pequenos excertos de todos Eles, para, quiçá, vos aguçar a curiosidade de os (re)lerem… e também os nossos registos, para reflexão…

TC

As imagens foram escolhidas pelos alunos. Dos textos dos escritores, apenas se publicam excertos.


Camões
Os Lusíadas

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venhoCantar a gente surda e endurecida.
[...]



PORTUGAL

(da Joana Ottone, 12º K)




“Cesse o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta”

Descobrimos as terras para além do mar que nos envolve, fomos os primeiros a ir em busca do desconhecido. Conquistámos e espalhámos a nossa cultura. Fomos reis do mundo um dia mas a ganância cegou-nos desperdiçando tudo o que ganhámos.

Hoje somos um povo preso ao passado. Um povo incapaz de se libertar, de avançar…
Vivemos da saudade, deixamos que esta nos envolva e consuma.

Um povo que desistiu de lutar e há séculos que espera por um Messias sem se aperceber que a “salvação” está em agir. Sem se aperceber que cada um vale mais do que pensa, cada um é Messias da sua causa.

É o negativismo que nos caracteriza. Passamos a vida a criticar tudo o que se faz, mas somos incapazes de agir. Somos incapazes de admirar a nossa cultura centenária. Somos incapazes de ver a qualidade dos nossos artistas. Somos incapazes de acreditar que algo que realizamos é realmente bom.

“É a Hora!”





José Saramago
Memorial do Convento

«Neste dia, desde o nascer do sol até ao fim da tarde, fizeram uns mil e quinhentos passos (…) Tantas horas de esforço para tão pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia estar arado, imóvel quando deveria mexer-se, amaldiçoado sejas tu, mais quem da terra te mandou tirar e a nós arrastar por estes ermos»
[...]



Portugal

(da Joana Marques, 12º K)

Precisamos de entender que Portugal não é apenas “Descobrimentos”, Portugal não é só Fernando Pessoa ou Camões, Portugal não é só Amália ou Cristiano Ronaldo, Portugal não é só “Magalhães”… Portugal, é o berço do mundo, pois, inteligente e pequenino, soube redescobrir uma Pangeia perdida, num mar imenso.

Sabemos falar, dizer e reclamar de um Portugal perdido, sem esperança de um futuro melhor. Sabemos ser patriotas apenas quando a selecção ganha um jogo. Sabemos criticar o prato onde comemos. Mas o que é certo é que quase se pode sentir o medo de dizer: “Eu sou Português!” – Pergunto-me, porquê? Na ânsia de respostas, encontro um Portugal desanimado, conformado com o “deixa andar” de um estado dirigente, que absorve aos poucos toda a identidade que nos resta…

Portugal tem vergonha de ser ele mesmo, de mostrar do que é capaz, de se impor e dizer: “Eu descobri o mundo!” – Está cabisbaixo de tal modo, que o IVA pode chegar aos 50% que ninguém se manifesta.

Alguém pode informar Portugal de que somos o “Quinto Império”? Nós, Portugal, somos a Mensagem de Pessoa, para pessoa, cidadão e Homem que diz que Portugal não tem jeito. Temos de fazer uma “Prece” para que o “Mostrengo” que há em nós, desperte e faça valer as “Quinas” do nosso “Brasão”, pois no fundo, Portugal, é “Porreiro pah!”.





Fernando Pessoa
Mensagem

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!




LUTA PORTUGAL!

(da Andreia Gomes, 12º K)

Triste…é assim que me sinto quando por eles passo. Fico a pensar onde estou, o que sou e o que faço. Ouvi-los falar assim, de algo que é tão meu e tão deles ao mesmo tempo, afasta-me da minha essência, do que me dá alma, voz e identidade. Não consigo estar perto por muito tempo, sinto que destroem em poucos segundos e com poucas palavras, séculos marcados de história e muitas vitórias.
Sigo em frente...sento-me e fico a ouvir aquelas conversas que no canto do café atraem até os que estão de passagem. As tais vitórias de um passado atrevido e conquistador, são agora pequenas lembranças de um país esquecido. O esquecimento acabou com a glória arrumada ao canto do pessimismo e da solidão. Ficou apenas um vazio carregado de olhares
que apenas teimam em ver um futuro negro, traçado por um presente que eles próprios sujam com tanto sentimento negativo. O tema está na ordem do dia e todos querem dar opinião, todos querem criticar e, às tantas, cada um luta por um lugar mais agressivo na discussão.
De repente o tempo pára...ergue-se a bandeira, ao longe a banda toca, o país pára... as mãos encostam-se ao peito, estas transmitem calor ao coração que bate ao ritmo da “Portuguesa”. Por momentos esquecem-se as tristezas, as angústias e a dor, sente-se um arrepio até no tremer da voz. Por momentos deixam-se as críticas de lado e o orgulho fala mais alto. Somos os heróis do mar, descobrimos terras, povos e culturas por todo o mundo. Desde cedo descobrimos mundos que nunca ninguém alcançou, e hoje dizemos a todo o mundo que nada na nossa história nos orgulhou?!
Somos a cauda de uma Europa que também precisa de nós. Somos a infelicidade alimentada por um orgulho que está há muito adormecido. É preciso soltar um grito de esperança, é preciso dar voz ao coração e deixá-lo bater pela pátria.
Está na hora de lutar e dizer o orgulho que temos em ser Portugueses. Chega de sermos o nosso próprio inimigo e deixarmos que todos sejam melhores que nós. Chega de vos ouvir dizer em conversas de café que não gostam de ser portugueses. Orgulhem-se da história, das glórias, dos mares conquistados, das pessoas que levaram o nosso nome a lugares que nem conhecemos. Somos o que fazemos, somos o que queremos, somos o que deixamos que nos façam. Somos a realidade de um espírito que troca as virtudes pelas marcas intensas deixadas pelos defeitos. Somos o que queremos e não o que deixamos que façam de nós.
Chega da inércia do país dos que se dizem coitados. Vamos lembrar o fado, o futebol, os portugueses que orgulham a nossa pátria. A união faz a força e ninguém pode enfraquecer um orgulho sentido e espalhado aos quatro cantos do mundo. Nada pode vencer um olhar emocionado com lágrimas arrepiadas de orgulho em ser português. Ninguém pode calar o hino da saudade que jamais será traduzido, ninguém pode apagar uma bandeira carregada de simbolismo, mas nós podemos mudar um futuro que orgulhará o passado que está esquecido e desvalorizado presentemente.
Vamos ter orgulho e lutar todos numa só voz...unidos e pensando positivo faremos a força de uma nacionalidade que apenas precisa de se impor. Vamos ser vaidosos da nossa bandeira e mostrá-la num sorriso, num olhar, numa memória, numa história... Se acreditares que fazes a diferença, eu acredito que serás uma marca na história. Levanta a cabeça...luta...vence. Pela pátria deves lutar e contra os canhões marchar, marchar!





Luís de Sttau Monteiro

Felizmente há luar!

Manuel -

Que posso eu fazer? Sim: que posso eu fazer?

Vê-se a gente livre dos Franceses, e zás!,

cai na mão dos Ingleses!

E agora? Se acabamos com os Ingleses,

ficamos na mão dos reis do Rossio...

Entre os três o diabo que escolha...

[...]



Portugal, o meu País!

(da Sara Lemonnier, 12º K)

“Portugal, o meu país!” Haja algum português que diga tal frase com orgulho! As críticas não faltam e o desgosto também não. Ouve-se, vê-se, lê-se em todo o sítio o quanto Portugal não presta, o como lá fora é melhor. Que cá dentro é tudo uma grande miséria, que o povo português é uma cambada de imbecis que não quer fazer nada e que os seus governantes ainda são piores.

Ficámos estagnados no passado e recusamo-nos a sair de lá. Fala-se em Descobrimentos e o povo levanta o nariz e enche o peito, propõe-se um projecto que irá colocar Portugal no mundo, baixa-se a cabeça e continua-se como se nada fosse.

Proponho que se pare de dizer mal, que se comece a ver as coisas de uma maneira diferente, proponho que haja orgulho! De críticas se faz um país! E de encorajamento também. Somos um bom povo, sábio e trabalhador, a nossa terra é fértil e bela e a nossa língua é uma das mais ricas do mundo. Fomos outrora um grande Império e podemos voltar a sê-lo. O país é o mesmo, o povo é o mesmo, só o espírito é que mudou, o espírito de conquista por que éramos reconhecidos e lisonjeados. Esse espírito há-de voltar, no segundo em que pararmos de “cuspir” no nosso país e o abraçarmos com força e dedicação.

Nada lá fora é melhor que em Portugal, mas ao insistirmos connosco mesmos que a ideia contrária é uma verdade absoluta e inquestionável, tornamo-los mais fortes e por sua vez realmente melhores. O orgulho é fundamental num país pequeno como o nosso, pois caso contrário somos engolidos e devorados pelos outros países.

Paremos de ter pena de nós próprios e levantemo-nos perante os perigos e os problemas causados pelo Monstro (personificação de Portugal) que nós criamos. Ergam-se os sentimentos de paixão e dedicação, pois eu tenho orgulho em dizer: “Portugal, o meu país!”




José Gil
Portugal Hoje – O medo de existir, Nov 2004
Assiste-se, neste momento inicial do século XXI, a um esforço desesperado para afirmar Portugal, quer dizer, para que Portugal subsista, inscrevendo-se na Europa. Isto passa, fundamentalmente, pela inscrição da nossa imagem no espaço internacional. Interessa-nos menos, por exemplo, estabelecer trocas, intercâmbios, misturas, osmoses, canais de comunicação permanentes com culturas das nações europeias, do que saber que as nossas produções têm grande eco «lá fora». O «lá fora» continua longe de nós.(…)
Efectivamente, andamos perdidos. Como toda a Europa, mas à nossa maneira. Talvez um pouco menos do que a Europa, porque conservamos, intactos, alguns dos nossos padrões e estratos arcaicos a que nos agarramos.
No salto brusco da pequenez para o colossal há a ânsia desmesurada em fazer de Portugal (e sobretudo de Lisboa) uma metrópole cosmopolita como Paris ou Nova Iorque. Sonho provinciano, como diria Fernando Pessoa (falando da vontade portuguesa de cosmopolitismo).



Mas se a Europa entrou em nós...

(do Diogo Lança Pinho Branco, 12º K)


"Mas se a Europa entrou em nós, nós ainda não entrámos na Europa". A frase de José Gil, traduz a pacata existência de Portugal no mundo actual.
O antigo e glorioso Portugal dos séculos XV e XVI mantém-se no espírito do seu povo, creio eu. Aquela fé inabalável, sustentada por uma religião constantemente presente no "espírito" do país, sempre deu alguma esperança ao típico português, mas nunca lhe permitiu ver o que há para além desse Portugal antigo e morto, isto é, o potencial que habita nas nossas terras e que, se impulsionado, poderá vir a permitir uma evolução estrondosa no país.
A esperança que referi, tem vindo a ser sucumbida pelo pessimismo português que, se comparado a potências europeias, se apercebe da sua pequenez.

Mencionando a actualidade, podemos referir que, não é desta época que os maiores problemas do país vêm à superfície. Estes recentes "imprevistos" na governação, educação
e organização de Portugal são apenas consequências dos longos anos de Inquisição e, mais tarde, da ditadura de Salazar que nada de bom trouxe, tendo em conta as condições de vida do soberano povo. A procura de modelos comportamentais, costumes e valores exteriores ao país vêm da falta de educação e, por conseguinte, da falta de desenvolvimento com que o nosso passado nos marcou, aparentemente, para sempre.
Poderei estar a adoptar uma visão demasiado pessimista, mas isto é aquilo de que me apercebo. Num mundo onde todas as pesadas portas parecem estar entreabertas, vejo-me preso no meu próprio país, ao saber que a grande maioria dos jovens licenciados não tem a oportunidade que merece e não consegue seguir a sua vida em frente, vendo-se confrontado com a hipótese de ir tentar a sua sorte no estrangeiro.
Tal como noticiado no jornal diário metro, Portugal vem referido como não sendo país para jovens, transmitindo assim a ideia correcta de um Portugal ressequido, velho, ainda pouco dinamizador das gerações mais jovens que, infelizmente, cada vez mais, se encontram em becos sem saída. Vivendo vão eles em casa dos pais, prolongando essa estadia até aos 30 anos ou mais, procurando emprego, enviando currículos e dando entrevistas para, pouco tempo depois receberem, ou não ou um simples agradecimento, seguido de uma recusa de trabalho.

É uma visão triste a que tenho de Portugal que, tendo em conta, o seu passado, deitou e deita tudo a perder. Um país, supostamente, aberto a novas visões culturais, é também um país com uma cultura tão forte e de, certa forma, arcaica, que se impede a si próprio de aprender o que quer que seja com aquilo que em Portugal "entra".

Tal como Fernando Pessoa anseia na Mensagem, eu próprio desejo um melhor futuro para Portugal que se esconde por detrás do seu "tamanho" e passado histórico.




Eduardo Lourenço
Entrevista de Virgílio Azevedo,
in Jornal Expresso, 11 de Dez. 2004.

Uma vez terminada a aventura e desfeito o Império, «restou-nos como herança um Portugal pequeno, retornado desde a Revolução dos Cravos às suas fronteiras europeias exíguas, que está agora contente com a companhia e as ajudas que recebe».
Os portugueses não estão hoje mobilizados para os oceanos. Depois do 25 de Abril perdemos essa tradição, mas mesmo ao longo da nossa História o mar sempre foi um obstáculo, uma barreira, uma fonte de sofrimento. Aliás, a nossa literatura está muito ausente do mar, à excepção de Camões, Pessoa, Vitorino Nemésio e pouco mais.
A proeza dos Descobrimentos deu-nos grandeza, converteu uma pequena nação num império, mas nunca aceitámos a nossa pequenez real.




Sem Título
(da Marta Mendes, 12º K)

Portugal viveu mais de 50 anos em regime ditatorial, e sofreu nas mãos de um líder que se dizia não ser humano. Quando o povo é perseguido, é torturado, é massacrado física e psicologicamente, acaba por esconder o medo, e unir-se e lutar contra esse poder. Há nas ruas, então, tanques, há gritos de liberdade, há cravos nos canos das espingardas … E o sentimento de liberdade é imenso. Deixam-se para trás as angústias, o medo, a dor de ver jamais aqueles que mais amamos, apenas porque falaram demais… Tudo isso acabou.
Viria uma nova era: a liberdade de expressão, o voto, o poder de escolha do povo pelo seu líder, viria ainda o desenvolvimento, as tecnologias, o avanço do país!
E o país avançou.
Os cofres do estado compraram tudo o que podiam. As portas até então fechadas, abriram-se ao mundo a pedido e a desejo de Portugal inteiro. Tanta sensação de poder, de liberdade, de segurança!

Tal como uma criança inconsciente, que passou a vida inteira debaixo da protecção dos pais, dentro de casa, e que, sem noção do que a espera, anseia por uma liberdade imensa e por se ver livre de todas aquelas limitações, quando finalmente se liberta… Não sabe trabalhar, não sabe investir, e não sabe fazer mais nada senão desistir, e chorar.
Portugal está na fase da adolescência: ninguém o consegue parar, e também já ninguém consegue fazer nada por ele. Diz-se que sim, mas não se vêem resultados… Os que se vêem, são tudo, menos positivos: As dívidas sobem, e têm tendência a aumentar, o desemprego aumenta também, o poder de compra diminui, e o país afunda-se, cada vez mais.
Temos, em Portugal, uma crise económica.

O poder de compra desapareceu. Aqueles que se habituaram a poder comprar, a poder ter uma vida calma e tranquila, já não a podem ter, mas continuam a fazê-lo. Os que se habituaram a uma vida rica, aproveitam-se daqui e dali para prosseguir com a única vida que conhecem, e os que nunca a tiveram, fazem esforços, fazem sacrifícios, e apertam o cinto um pouco mais, passam fome para dar de comer aos filhos. O desespero surge como o único recurso que Portugal tem. Os roubos são mais frequentes, a violência aumenta, e a insegurança está de tal forma que já ninguém aguenta. Já ninguém deixa a porta de casa aberta para os vizinhos entrarem e oferecerem uma sobremesa, ou apenas fazerem uma visita.Já não saem à rua com tanta frequência. Já não saem sozinhos. Já não têm confiança no vizinho do lado.

Os jovens já não têm emprego, e as licenciaturas já não têm valor algum: Querem-se pessoas novas, com experiência. Os Jovens licenciados não têm experiência, aqueles que a têm são velhos demais. Por isso, o lugar é cedido a estrangeiros sem experiência nem licenciatura, que recebem menos.

O país está descontente com o governo. As manifestações aumentam, as greves multiplicam-se.

Ouvem-se cada vez mais os insultos xenófobos e racistas. A amizade já não existe, porque o emprego e o dinheiro é mais importante. É necessário passar-se por cima dos amigos, porque recebemos mais 100euros. A solidão é frequente, mas isso não importa, porque temos dinheiro para comer. Tudo por dinheiro. Mata-se por dinheiro.

Temos, em Portugal, uma crise social.

O Governo tem a situação descontrolada. Muitos dos que para lá sobem, metem metade, ou uma grande parte, dentro dos bolsos das suas famílias. A crise é tão grande, que já não importa o país, importa dar um bom lar à família. Importam os carros caros, e a apresentação à sociedade. Importa não errar, e ser perfeito. Importa ter dinheiro, mesmo que isso implique, mais uma vez, roubar.

Ninguém que suba ao governo tem o poder de fazer milagres. A situação é tão grave, que nem o nosso governo a consegue já disfarçar. Até é possível que tentem fazer alguma coisa… Mas o povo está tão descontente, que já não quer saber. Os populares já não acreditam nas promessas de ano após ano, já não acreditam nas medidas fantásticas que não têm explicação de acontecer, já não confiam na palavra dos nossos líderes… O Povo já não vota. O governo escolhe-se pela mínima percentagem de população que ainda acredita que se pode fazer alguma coisa.
O povo já se mentalizou que passará fome, e que não terá mais que isso. O povo acredita apenas que morrerá com fome, ou a tentar fazer algo pelos seus filhos. É mais fácil, e mais seguro, desistir.
O desespero atinge também o governo. Aqueles que lá estão querem sobreviver à crise, e tropeçam uns sobre os outros. O país deixou, totalmente, de interessar. Interessa subir ao poder, interessa ter dinheiro, interessa mandar para ser intocável.
Interessa fazer alguma coisa urgente pelo país… Mesmo que implique afundá-lo.
Temos, em Portugal, uma crise política.

A questão não é ter vergonha de ser portuguesa, ou ter vergonha de Portugal. O que aqui está a acontecer é um desrespeito total pelos nossos antepassados.
Portugal era um país de guerreiros. Portugal era um país de marinheiros descobridores, de heróis marítimos e terrestres. Portugal era um país de grandes escritores, de grandes artistas, de grandes reis. Portugal era um país credível, e um país com muito por que se lutar.
Agora? ...
Portugal transformou-se no refúgio dos cobardes, na toca dos invejosos, na cama de seda dos egoístas ambiciosos.
O voto porque muitos lutaram por ter, hoje ninguém dá importância. O povo tem o direito de escolher o líder do país e já nem isso quer escolher. Estão a pedir uma nova ditadura, por que muitos deram a vida por fazer desaparecer.
A segurança, que antes tinham, desapareceu.
Não tenho vergonha de ser portuguesa. Não tenho vergonha de Portugal.
Tenho vergonha, apenas, das pessoas que preenchem agora os lugares de quem já dera orgulho a este país.




Portugal

(da Ana Francisca, 12º K)

Portugal tem estado, não décadas, mas nos últimos séculos – a correr numa tentativa falhada de acompanhar a permanente metamorfose política, social e económica do planeta.
Falhada. Tentativa falhada esta que não cansa, mas estafa. Gasta e destrói recursos humanos, técnicos e naturais. Falo em mortes de pessoas, gasto de madeiras, petróleo e mármore para construir pontes, barragens e edifícios sem utilidade.
Portugal é um dos mais velhos países do mundo. Quantos países estavam fundados antes de 1143? França? Possivelmente. País velho e sábio, lançou-se nos mares antes de haver naus!!
Foi brilhante. Espalhou a sua cultura – tanto que muitos portugueses, ainda hoje, viajam para países como o Japão devido às alianças económicas feitas à 500 anos – fez aprender o que por cá se fazia e o reflexo disso ainda hoje é visível. Passados 500 anos, um japonês fala com um português com o mesmo sorriso de há cinco séculos. Há lojas no Japão que vendem açúcar português. Fantástico!
Lusitânia foi vanguardista. O primeiro país a explorar e descobrir o Inferno, hoje África; desenvolveu a sua gastronomia, plantou vinhas Douro abaixo, misturou-se com as culturas asiática, africana e até Inglesa. Sagou imponentes Eças, Camões, Garrets, Pessoas e Saramagos; deu lugar a artistas como Almada Negreiros e outros que num clima de permanente insegurança, tristeza e medo produziram obras tão importantes. Estes artistas contornaram e, atrevo-me até a dizer, controlaram o regime fascista. Foram a voz do povo agoniado que mais tarde exclamou, escreveu, cantou e chorou “25 de Abril, Sempre!”.
Mas voltando às palavras que abriram esta exposição.
Portugal… Portugal… Tens tudo para funcionar. Mas pessoas….
És um país alimentado por tiranos, pessoas incompetentes que só sabem puxar a brasa à sua sardinha, encher os seus bolsos… advogados desfraldados, engenheiros não graduados, doutores da Ordem…mas qual Ordem…. Esquecem-se eles que ficando a brasa demasiado puxada fica a sardinha crua!

A educação.
Existem dois tipos de educação: a boa formação recebida em casa que consiste em dizer “bom dia” e “obrigado”. E há o outro tipo de educação, a académica.
Neste país, podemos ter a maior educação, ir longe e ser alguém com grandes diplomas, cursos ao Sábado, explicações, cursos de verão, cursos de Páscoa, blá, blá, blá….
De que nos serve isto se não há educação em casa? Se não há ninguém que diga ”se faz favor” e “obrigado”? Culpam as crianças por não ter esta educação, mas mais culpa têm os pais. Quem apareceu primeiro? O ovo ou a galinha? É exactamente o mesmo. Serão estas as pessoas a governar o país onde vivo?
Eu acredito no nosso pais, nos seus recursos e nas pessoas que o habitam. Só não acredito nas suas convicções e pretensões.


Nota: Estes textos foram publicados com autorização dos alunos do 12º K. Não é permitida a reprodução sem a legítima autorização dos autores.

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