segunda-feira, 13 de junho de 2011


No Jardim de Epicteto*


Fernando Pessoa, contador de histórias. No 123º aniversário do autor aqui fica um conto filosófico.
Respeitamos a ortografia original tal como está na obra Pessoa inédito (1993).


O aprazível de ver estes fructos, e a frescura que sahe d'estas arvores frondosas, são - disse o Mestre, - outras tantas solicitações da natureza para que nos entreguemos ás melhores delícias de um pensamento sereno. Não ha melhor hora para a meditação da vida, ainda que seja inútil, do que esta em que, sem que o sol esteja no occaso, já a tarde perde o calor do dia e parece que sobe vento do arrefecimento dos campos.

São muitas as questões em que nos occupamos, e grande é o tempo que perdemos em descobrir que nada podemos nellas.
[...]

Socegae commigo á sombra das arvores verdes, em que não pesa mais pensamento que o seccarem-lhes as folhas quando vem o outomno, ou esticarem multiplos dedos hirtos para o ceu frio do inverno passageiro. Soccegae commigo e meditae quanto o esforço é inutil, a vontade extranha; e a propria meditação, que fazemos, nem mais util que o esforço, nem mais nossa que a vontade. Meditae também que uma vida que não quere nada não pode pesar no decurso das coisas, porque não pode obter tudo. E o obter menos que tudo não é digno das almas que solicitam a verdade.
Mais vale, filhos, a sombra de uma arvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira emquanto dura, e o conhecimento da verdade é falso no proprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das folhas, podeis mostral-o aos outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem saber fallar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem está calado e o silencio de quem não foi entendido, e em torno d'isto, como uma abelha em torno de onde não ha flores, paira incognito um inutil destino.

[texto dactil.; s/data]

Epicteto: filósofo grego estóico. Viveu em Roma como escravo na época do imperador Nero. A obra que deixou reflecte as suas preocupações de estóico: como viver feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais? (cf. Wikipedia)


Pessoa, Fernando (1888-1935)
Pessoa inédito, coord., org. e prefácio por Teresa Rita Lopez . Lisboa: Livros Horizonte. 1993, pp.429

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