quinta-feira, 26 de maio de 2011


Os dias da infância






As editora teorema fez sair, em 2011, a 5ª edição de O Prazer da Leitura de Marcel Proust, Journées de Lecture, no original. Nele, descobrimos o estilo com que depois escreveu À la recherche du temps perdu, um romance moderno, escrito na solidão do seu quarto, afastado da vida social, após a morte do pai (1903) e da mãe(1905).
O parágrafo que aqui publicamos tem um período longo, mas muito belo. Remete-nos para o tempo da infância do autor em que o próprio tempo não contava e a vida passava de forma lenta e sem consciência dessa passagem. E o que fica dela são os livros, as leituras e os lugares, apenas revisitados na memória quando são folheados.

A fim de sentirmos a nostalgia e a doçura que emana do discurso, o excerto requer de nós uma leitura lenta, sem pressas (tal como o tempo de infância, em suspenso) colocando a nossa respiração a par do tempo do discurso, respeitando as suas pausas, sabendo que só podemos descansar no ponto final desse parágrafo.



«Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto sobre a nossa cabeça, o Sol diminuía de intensidade no céu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capítulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que o que líamos então com tanto amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo os únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectida nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem.»

Proust, Marcel, O prazer da leitura (5ª ed.) (Magda Bigotte de Figueiredo, Trad.). Lisboa: teorema, 2011. pp.5-6.
Imagem: Gravura do artista Pierre Lesieur que faz parte da edição Journées de lecture. Éditions Paris, Livre contemporain, 1969.

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