sábado, 19 de junho de 2010


Eu sou este desnudo

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Eu sou este desnudo
mineral:
eco do subterrâneo:
estou alegre
de chegar de tão longe,
de tão terra:
último sou, apenas
vísceras, corpo, mãos,
que se afastaram sem saber poquê
lá da rocha materna,
sem a esperança de permanecer, decidido ao humano transitório, destinado a viver e desfolhar-se.


Ah esse destino
da perpetuidade escurecida,
do próprio ser - granito sem estátua,
matéria pura, irredutível, fria:
pedra fui: pedra escura
e a separação foi violenta,
a ferida em meu alheio nascimento:
quero voltar àquela segurança,
ao repouso do centro, à matriz
dessa pedra materna
de onde não sei como nem sei quando
me desprenderam pra desagregar-me.


Pablo Neruda

(1978). As pedras do céu (1ª ed.).Lisboa: Arcádia.

Na morte de José Saramago,1922-2010
a nossa sentida homenagem.

1 comentário:

Tüp Bebek disse...

foi um artigo que eu gostava. Obrigado por compartilhar.