sexta-feira, 14 de maio de 2010


direita mão vermelha

(do André Ribeiro - 12º m)


Eu fico, sem que tu fiques enquanto ele ficar, sendo que nós ficaríamos se vós não ficásseis com eles, que, decerto, ficarão.


O escravo grita que sabe o que quer, enquanto desce a Calçada da Graça, empoleirado em andas feitas de cabos de vassoura mortificados pela chuva a meio do Verão violáceo e com antecedentes de enxaquecas e prisão de ventre. Vindo de um simpósio, um indivíduo que não é alto, elegante nem bonito, apenas aparentando sê-lo, reflecte acerca do seu próprio livre arbítrio enquanto pergunta as horas, de novo à mesma criatura estatual e nada danificada pelo lugar quente ao mar. A resposta não é mundana, mas, mesmo assim, como eu sou a mentira em que ele quer acreditar, digo-lhe que responda que as horas são as unhas feitas de asas de escaravelho com sabor a baratas recentemente paridas por caracóis flamejantes. O indígena entende.


O indivíduo, que agora já é alto, avista o escravo ao fundo da rua, aproximando-se imponentemente. O caso de super sanidade burlesca berra-lhe que sabe que as bonitas máquinas de ódio programam realizar uma película de gases de ficção documentarista acerca da inacabável rotina da sua gravata negra. Enquanto observo a sua reacção, lanço um gume ao sol. Este apaga-se. Não é quem sou que importa, quando o mundo se apaga.

Um dia, este será o infinito lascado e tostado. Um dia, será tudo igual às janelas da Calçada da Graça no dia de hoje. E quando tudo o que for importante se tornar destrutivamente falsificado, já nada vai importar. O escravo encontrou o que procurava.




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