terça-feira, 4 de maio de 2010


Cartas de AMOR

Retomamos alguns trabalhos dos nossos alunos, baseados numa crónica de António Lobo Antunes "A dona Olga e eu".

(da Maria João Jerónimo - 12º E)


Lisboa, 9 de Outubro de 2009.





Com a cortina entreaberta e uma série de objectos interessantes, era impossível não reparar. Já o tinha observado antes, mas hoje foi diferente, hoje decidi não hesitar.

Como é habitual, o relógio faz soar as três badaladas e o seu corpo dormente arrasta-se pela casa, ou habitat se preferir. Consigo colocar-me numa posição estratégica e perscrutar tudo em redor: um bloco de notas, uma elegante caneta e meia dúzia de envelopes em cima da mesa. Posso imaginar que esteja a escrever cartas ou poesia, daquela que já não vem em livros.

A telefonia alegra-se ao som dos Trabalhadores do Comércio e o sussurro dos seus passos aproxima-se. É notável o seu sorriso, é notável a liberdade que hoje ostenta. Arrasta a cadeira e senta-se com vagar. Verifico algum receio mas isso não o impede de voltar a escrever. As palavras são soltas e a tinta permanente percorre todas as linhas possíveis.

A fragrância presente no ar é forte e quase que me atrevo a dizer que hoje está feliz. Os sapatos engraxados e a sua camisa impecável levam-me a pensar que hoje observou o sol de uma perspectiva diferente.

Observo-o agora atentamente pelo espelho enquanto coloca minuciosos escritos dentro dos envelopes. Sela-os de uma forma muito intimista e coloca-os junto a tantos outros numa ternurenta caixinha. Um dia gostava de os receber.

Mas, como hoje voltou a não os enviar, dou eu o primeiro passo e deixo-lhe esta pequena carta. Amanhã eu volto.



imagem: Google_imagens

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