terça-feira, 20 de abril de 2010


O senhor Joaquim

(da Diana Palma - 12º E)

Todos os dias que por ali passo o vejo. Todos os dias que penso que já não o vou ver, o vejo. Ele chama-se Joaquim. E os seus olhos, carregados de imagens e rugas, são os olhos mais belos que alguma vez vi.

O Sr. Joaquim, coitado, já mal consegue andar, já mal consegue respirar. As mãos cansadas e ásperas, as pernas sem vontade de continuar. Pergunto-me como seria o Sr. Joaquim quando novo. Um homem forte, feliz com certeza. Pergunto-me como será envelhecer um dia.

Sempre que ali passo debaixo do parapeito da janela, o Sr. Joaquim esboça um pequeno sorriso como que um cumprimento. Coitado do Sr. Joaquim! Sempre sozinho, sempre distante. Por vezes aparece um Sr. mais novo. Provavelmente o filho. Mas de que vale ter um filho que já não sabe o que fazer com o pai? É assim a velhice. É a vida.

E eu que nunca tive um avozinho.
Às vezes sinto que o Sr. Joaquim quer sair daquelas paredes sufocantes, daquele corpo velho que já não o deixa viver. E tem um brilhozinho nos olhos que causa angústia. O comprimido às 8h para a tensão, o comprimido às 9h para o coração... Coitado do Sr. Joaquim que depois de ser traído pelo próprio corpo, ainda sonha com a vida, com a juventude.
Ontem, quando passei debaixo do parapeito da sua janela, aquele silêncio ensurdecedor fez algo parecer estranho.
Ás vezes... devíamos tanto fazer alguma coisa por alguém. Mas toda a gente se esquece, toda a gente tem medo, toda a gente se afasta, toda a gente tem pena...
Mas agora é tarde demais. O Sr. Joaquim morreu.
Será que alguém sabe pôr este relógio a andar para trás? Não vale a pena! Andam todos muito mais preocupados com as suas vidas. Quem sabe um dia eu possa voltar atrás e dizer, desta vez mais alto:

- Ele chamava-se Joaquim. E os seus olhos, carregados de imagens e rugas, são os olhos mais belos que alguma vez vi.

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