terça-feira, 20 de abril de 2010


A janela da minha vizinha

Partindo da crónica de António Lobo Antunes "A dona Olga e eu", publicada na revista Visão, a 20 de Agosto de 2009, os alunos do 12º E e M reproduziram a mesma estrutura, re-inventando situações do seu quotidiano.



(da Tatiana -12ºE)

Melodia calorosa acompanhada por um cheirinho a bolo acabado de fazer.

Avisto da janela, meticulosamente decorada com jarrinhos cobertos de jasmins, uma senhora, dona do seu nariz, vestida com umas longas saias (quase tropeçava nelas) e com uma blusa de uma cor indefinida. Cabelo sedoso de tanto pentear, olhos gigantescos pintados com uma leve tonalidade, lábios finos que transportam um sorriso delicado.

A sua voz fazia-se ouvir dentro de cada frecha aberta por engano, cantarolava como um rouxinol. Mais atentamente, descobria cada segredo que aquela cozinha escondia. Em cima do parapeito da janela, um bolo de chocolate com o seu ar macio, ao vento. Azulejos já de meia-idade colados desajeitadamente contra a parede branca, um candeeiro de tecto, suspenso pelos finos fios, uma mesinha redonda no centro com um pano feito à mão (penso que tenha sido feito por ela nas horas vagas) e um pequeno forno que quase parecia um daqueles de brincar.

Não possuía qualquer tipo de valor, só mesmo a sua voz de anjo alegrava aquele cenário tão triste. Sempre me perguntei o porquê de tanta tristeza e solidão. Uma mulher tão bela como ela, com uma voz que encanta nunca teria tal destino num conto.

No meio de tantas leituras em que me embebo, só agora reparei no que trazia ao pescoço, um colar, uma verdadeira beleza dentro da simplicidade. Umas iniciais apagadas pelo tempo faziam-se notar na medalhinha que baloiçava presa no colar. Nome de alguém que a amou? Ou talvez o nome do tal menino que criou. Gostava de estar a seu lado para lhe perguntar e, quem sabe, principiar uma longa conversa amigável, à roda da mesinha redonda.

Como Dona Fernanda está tão sozinha na sua cozinha! Até dá dó. Depois de frio, agarrou no delicioso bolo de chocolate e levou-o para dentro (espero que não me tenha visto). Com uma pequena faca bem afiada cortou finos pedaços, num prato de loiça azulada muito gasta, onde colocou um pedacito. Deliciou-se com todo aquele chocolate.

Ao terminar, olhou para o relógio com um suspiro, e começou a cantar uma leve canção de embalar (arrepios sentidos na minha pele). Como adoro aquela canção!


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