domingo, 14 de fevereiro de 2010


Queimar livros

Foto: Kosovo, cenário de guerra.
Fonte: Revista Sábado, 11-17 Fev.2010
Texto de opinião: José Pacheco Pereira, in A lagartixa e o jacaré, "Queimar livros".

"Ao público em geral passa despercebida a prática cada vez mais generalizada de destruir milhares de livros em perfeitas condições, quer por parte de entidades públicas quer de editoras privadas.
Embora haja uma mistura de boato e verdade, que faz com que não se saiba ao certo a dimensão do nosso holocausto de livros, diz-se que a imprensa nacional (a editora do Estado), assim como um grande grupo como a Leya já procederam a abates de milhares de livros, usando como pretexto as dificuldades de os manter armazenados, a desadequação dos títulos ao mercado ou o próprio controlo do mercado, eliminando edições antigas para as substituir por novas.
Admito que possa haver casos que justifiquem algumas eliminações, o que não me parece correcto é que não se dê oprtunidade para que uma parte desses livros possa ser salva, oferecida a instituições a que possa ser útil, ou possa entrar no mercado dos saldos de edições num país em que a leitura é um problema."
Comentário nosso: Concordamos em absoluto com o autor do artigo. A bem da verdade, temos de referir que a nossa escola recebeu, ainda há poucos meses, uma doação considerável de livros da Imprensa Nacional - Casa da Moeda. Mas não nos agrada mesmo nada saber que parte dos livros dos grandes grupos editoriais são para destruir, visando novas edições e novos lucros.
Soluções mais justas impõem-se. Como sugere JPP, as ofertas a instituições de solidariedade social podem constituir uma das soluções.
A este propósito, transcrevemos uma passagem de Firmin, de Sam Savage, um romance cujo protagonista, um rato, retrata simbolica e desassombradamente a dimensão humana.
[ Firmin, a personagem, conta-nos as histórias da sua vida de rato guloso de livros (em breve, mudará de ideias e apreciá-los-á como um tesouro a preservar!). A sua casa é uma livraria de um velho bairro central de Boston, que tem os dias contados pela especulação imobiliária e em nome do progresso. Norman Shine, o livreiro, convencendo-se finalmente de que a situação é inevitável, decide tomar uma decisão]


«Uns dias depois de dizer que ia fazer uma coisa, Shine pendurou na montra um grande cartaz onde escreveu à mão:

Livros Grátis
Leve todos os que conseguir carregar em 5 minutos

Então era àquilo que ele chamava fazer alguma coisa. Dar os livros de mão beijada era um acto de generosidade tão grande e traduzia um desespero tão forte que quase me voltei a apaixonar por ele. Livros grátis, como depois da revolução. [...] O efeito do cartaz foi imediato - é espantoso como as pessoas gostam de borlas - e nos cinco dias seguintes foi o caos. Depois de o Globe publicar uma reportagem sobre o assunto, apareceram tantos candidatos ao ataque de cinco minutos à livraria que foi preciso chamar a polícia a cavalo para controlar a multidão, que a dada altura descia toda a Cornhill e dobrava a esquina. As pessoas vinham munidas de sacos de papel, mochilas, caixas de cartão, até malas de viagem, e enchiam-nas até mais não. [...] As ruas ficavam semeadas de livros. Shine saía com um saco de papel e recolhia-os. Os que não estavam muito estragados regressavam às prateleiras, à espera do pandemónio do dia seguinte, os outros deitava-os fora. Ao princípio foi emocionante, depois foi triste. Era triste passar pela loja à noite, um lugar onde tinha decorrido toda a minha vida, a minha casa, no fundo, e ver todas aquelas prateleiras vazias.»
Savage, S.(2009). Firmin; trad.Sofia Gomes. 2ª edição. Lisboa:Planeta. p.139

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