domingo, 31 de janeiro de 2010


O riso do Kindle

Fonte: Sábado, opinião de Alberto Gonçalves*, 28-01-2010



Ando preocupado com o Kindle. Não, não é outra criança inglesa desaparecida no Algarve ou uma agência de rating a prever a falência do país. O Kindle é o leitor de livros electrónicos da Amazon e foi o grande sucesso da empresa no Natal no ano passado, de resto o primeiro em que os e-books superaram as vendas dos livros propriamente ditos.
Abomino o Kindle com todas as forças do meu ser. Infelizmente, essas forças são débeis e não me impedirão de um dia comprar o pechisbeque e, pior, de o reverenciar com idêntica intensidade. Já me aconteceu o mesmo com a música, que comecei por acumular em discos de vinil aos quais jurei amor eterno. Depois, vieram os CD e a eternidade interrompeu-se. Ano após ano, os CD multiplicavam-se com o frenesim de fanáticos religiosos. Uma ocasião, mandei fazer uma estante adequada. Não sei descrever a alegria que experimentei a organizar milhares de caixinhas de plástico por género e autor, e a culpa por despachar o vinil para a prateleira rente ao chão, especialmente dimensionada em memória de um passado que seria injusto esquecer ou, dada a trabalheira com as agulhas, as limpezas e os riscos, apetecível recuperar.[...]

Porém, o infinito revelou-se novamente breve e durou o tempo necessário à disseminação de ficheiros digitais. Resisti ao iPod o que pude. Não pude muito. Nos idos de 2007, enfiei a estante em 80 gigabytes que cabem no bolso convencido, na minha recorrente ingenuidade, de que a evolução, digamos, teminaria aí. Não termina, nunca termina: o passo seguinte, consta, consistirá num arquivo online com cada peça musical alguma vez publicada, similar ao que guardará os filmes e "audiovisuais" em geral e que a prazo cobrirá de ridículo os saltinhos do VHS para o DVD e do DVD para o Blu-ray.

Mas uma coisa é abdicar dos suportes físicos da música e dos vídeos. Coisa distinta é abdicar dos livros. São mais numerosos. Ocupam mais espaço. É impossível contê-los, a fim de os ignorar, numa prateleira baixa. É impensável deitá-los ao lixo. Quando os livros ficarem obsoletos, terei paredes de inutilidade a assombrar-me com imaginária reprovação e pó verdadeiro. É algo tão macabro quanto manter as ex-namoradas embalsamadas na sala de estar, vivas ou mortas.

Ou pior. Uma ladainha analfabeta em voga garante que o importante é "ser" e não "ter". A ladainha desconhece que, em larga medida e em medida ainda maior no caso dos livros, somos aquilo que temos. E se o que temos se transforma num anacronismo, é inevitável que nos tornemos anacrónicos também. Ao contrário do que se julga, adquirir na meia-idade o Kindle ou gadgets afins não nos ajusta à época: apenas mostra, com requintada crueldade, que a nossa época acabou ou ameaça acabar. O Kindle, em suma, ri-se de nós, com o ecrã escancarado, e aposto que, cedo ou tarde, pagarei para ouvir o seu riso. Absurdo? A espécie é assim: está nos livros, entretanto ironicamente digitalizados e apetitosamente portáteis.

*sociólogo

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