terça-feira, 5 de janeiro de 2010


No cinquentenário da morte de Albert Camus


Albert Camus (7 de Novembro de 1913 - 4 de Janeiro de 1960

«Criar, actualmente, é criar perigosamente. Toda a publicação é um acto e este acto expõe às paixões de um século que nada perdoa. A questão não é , pois, a de saber se isso é ou não causa de prejuízo para a arte. A questão, para todos os que não podem viver sem a arte e o que ela significa, está somente em saber como, entre as polícias de tantas ideologias (quantas igrejas, que solidão!) a estranha liberdade da criação permanece possível.
Não basta dizer a este respeito que a arte está ameaçada pelos poderes do Estado. Neste caso, com efeito, o problema seria simples: o artista ou se bate ou capitula. O problema é mais complexo, mais mortal também, desde o momento em que se verifica que o combate se trava no interior do próprio artista. O ódio à arte, de que a nossa sociedade oferece tão claros exemplos, não tem tanta eficácia, hoje em dia, senão porque é fomentado pelos próprios artistas. A dúvida dos artistas que nos precederam dizia respeito ao seu próprio talento. A doas artistas de hoje atinge a necessidade da sua arte, portanto a sua própria existência. Racine, em 1957, pediria desculpa de ter escrito Bérenice, em vez de combater em defesa do Édito de Nantes.
O facto de a arte ser posta em causa pelo artista tem muitas razões de que não é preciso reter senão as mais importantes. Explica-se, no melhor dos casos, pela impressão que pode ter o artista contemporâneo de mentir ou de falar por falar, se não se aperceber das misérias da história. O que caracteriza o nosso tempo é, com efeito, a irrupção das massas e da sua condição miserável frente à sensibilidade contemporânea. Sabe-se que existem quando havia a tendência para as esquecer. E sabe-se, não porque as classes de escol, artísticas ou outras, se tenham tornado melhores; não, tranquilizemo-nos, mas porque as massas se tornaram mais fortes e não deixam que as esqueçam.
(….) O artista, na maior parte dos casos, tem vergonha de si e dos seus privilégios, se os tem. Tem de responder, antes de tudo o mais à pergunta que a si próprio faz : é a arte um luxo mentiroso?»

Fonte: O Artista e o seu tempo, Conferência proferida em Upsala, a 14 de Dezembro de 1957.
Ligações: Biografia de Albert Camus em língua inglesa.
http://tempsreel.nouvelobs.com/speciales/albert_camus/

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