sexta-feira, 8 de maio de 2009


O Bibliotecário Ambulante



Da LER, Livros e Leitores, Maio 2009.
Texto : Sara Figueiredo Costa, in "Histórias e Apontamentos"
(excertos).

Desta vez destacamos Nuno Marçal, pelo espírito de missão com que se coloca ao serviço do saber e da cultura, em terras de Proença-a-Nova, retirando daí tanto prazer como aquele que dá.

O Bibliotecário Ambulante

Depois de concluir uma pós-graduação em Ciências Documentais, Nuno Marçal aceitou o desafio de partir com uma carrinha cheia de livros pelas aldeias de Proença-a-Nova. Publica as fotografias num blogue e promete continuar. Sempre de 15 em 15 dias.



As citações sobre bibliotecas podiam encher várias páginas desta revista, a começar por Jorge Luís Borges e o seu paraíso em forma de estante, ou por Albert Manguel e a sua paixão devota pelos livros. Mas é com Umberto Eco que melhor se compreende o que será contado em seguida. Num volume discreto sobre A Biblioteca, disse o autor italiano que "nós não nos apercebemos até que ponto o instrumento biblioteca continua ainda a ser uma coisa desconhecida para a maioria das pessoas". Quem viva nas grandes cidades, ou mesmo em vilas mais distantes dos centros urbanos, poderá discordar, dizendo que só desconhece quem quer. Mas longe da rede de bibliotecas municipais que floresceu nos últimos anos, há aldeias que só vemos nas reportagens televisivas (sobretudo se os temas forem o isolamento e o despovoamento) onde a biblioteca é um conceito tão estranho como a banda larga. E aí, a única forma de colocar a biblioteca ao serviço das populações é cumprir o provérbio que fala da montanha e do Maomé.
Com as carrinhas da Fundação Calouste Gulbenkian a fazerem parte de um passado de boa memória, as bibliotecas itinerantes têm renascido aos poucos, quase sempre associadas a pólos fixos em cidades próximas. É o caso da Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova, resultado de um projecto contra a exclusão social. [...]
Nas escolas e centros de dia, os mais novos têm jogos de computador e a Internet como ponto de atracção central, mas nem por isso desdenham os livros. Os mais velhos, com a mobilidade reduzida a exigir sossego, recebem o bibliotecário e uma das suas "maletras" como espaço de convívio, lêem revistas, ouvem ler as histórias dos outros e, cada vez mais, contam as suas próprias.
Se o paraíso é ou não uma espécie de bilioteca, como Borges acreditava, ainda é cedo para saber. Mas nas aldeias de Proença-a-Nova, a biblioteca é uma espécie de paraíso, sem querubins louros ou potestades com harpas deliciosas, é certo, mas com histórias, descobertas, conversas à desgarrada e um bibliotecário que vem de longe, pelos mesmos caminhos que trazem o posto de saúde móvel, e chega com livros nas mãos.

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