quarta-feira, 11 de março de 2009


A divina neutralidade do ser

Apresentamos o texto da professora Risoleta Pinto Pedro.

A internet, os blogues, as fotocópias, os livros, os professores, etc, não são bons nem maus em si, porque tudo é neutro. Somos nós que pomos o mal e o bem em tudo o que existe.

Falava-se sobre as novas tecnologias. Às tantas aquilo parecia um Benfica Sporting, ou uma coisa ainda mais inquietante que um Benfica Sporting, do tipo: quem não por mim é contra mim, eu gosto e uso e é bom, eu não gosto e não uso e não presta, se eu uso por que é que os outros não o fazem, se eu não uso por que é que há quem o faça? O sexo dos anjos. Teólogos medievais a discutirem se para além dos 200 que toda a gente sabe, cabe mais algum anjo na cabeça de um alfinete. Estamos no século XXI e estamos neste paradigma de dinossauros discutindo questões absolutamente erradas. Porque não está em causa se os blogues são melhores que os sites, se a internet é melhor que os jornais, se usar as novas tecnologias garante as boas práticas, etc, etc. Equívocos atrás de equívocos. A internet, os blogues, as fotocópias, os livros, os professores, etc, não são bons nem são maus em si, porque tudo é neutro. Somos nós que pomos o bem e o mal em tudo o que existe. Com uma flor pode ferir-se uma pessoa, com uma espada pode defender-se um indefeso, a energia atómica pode servir-nos ou pode destruir-nos.

É incontornável que os novos paradigmas já não se compadecem deste tipo de pensamento dicotómico, a própria física quântica anda a pôr os cientistas loucos, porque afinal os protões já não se comportam como deviam, podem ser partículas e ondas ao mesmo tempo, existirem e não existirem, estarem mortos e vivos ao mesmo tempo, e em vários mundos ao mesmo tempo, afinal o que é isto?! (leia-se, por exemplo, a Science et vie de Fevereiro…) Que mundo é este onde nada, afinal, é o que parece?!

Os novos paradigmas convidam-nos a fazer uso daquilo que este maravilhoso mundo nos oferece, a panóplia é vasta, e nós podemos criar o que quisermos com o que quisermos. Podemos escolher, o que é uma coisa maravilhosa e faz parte daquilo que nos torna humanos: o nosso livre arbítrio. Podemos escolher escolher e podemos escolher respeitar aceitar, admirar e estar gratos a quem não escolhe como nós. Porque nos mostra uma outra parte do mundo. Amplia-o, Enriquece-o. Podemos até escolher estar gratos a quem não quer escolher. A saúde mental do mundo (que é a nossa, porque não há redoma de vidro onde nos isolemos; haver há, mas é a loucura) depende da existência da maior diversidade possível. Não se é melhor nem pior por se usar as tecnologias. É-se apenas diferente. Gosto das possibilidades que as novas tecnologias me permitem, a nível pessoal, profissional e criativo. Mas sinto-me grata por haver resistentes que, desconfiados, observam e recuam e se recusam. Eles são a garantia de que o antigo mundo não morre. E nós também necessitamos dele.

Os livros. Tanto mal já se fez por eles, com eles, e como têm salvado tanta gente…
A internet. Esse maravilhoso meio, com ele tanto mal se tem feito, tanta gente se tem libertado, tanta gente através dela se liberta do isolamento a que uma limitação a obrigou. Como é possível estar (ainda) contra ou a favor? Estar contra o outro é estar contra nós. Porque sem o outro o meu mundo não existe, é apenas uma redoma de vidro para habitação de loucos.

Ver a mensagem no seu contexto em: http://www.unicepe.com/

1 comentário:

Anónimo disse...

Interessante este olhar-pensar-escrever, superiormente pairante-observante de todos os pecadilhos idiossincráticos dos pobres, falíveis, humanos.Para mais, um belíssimo texto. O que é bom. O que é mau. O que nem é bom. O que nem é mau. Afinal também a escrita, reflexiva ou outra, tem salvado, tem levado à fogueira.
Começou bem o meu sábado blogoesférico, bem haja arteziletras!

José Mateus da Silveira,
que não tendo blog, não pode comprovar aqui a identidade. O que é mau. O que pode nem ser mau. Apenas mais uma tonalidade do espectro cromático...