quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


Como num Aquário


Publicamos o texto da professora Risoleta Pinto Pedro, retirado da Plataforma e-vai.

Pedro Salgado e o Desenho Científico

Entra-se na galeria como num aquário. Cercada de peixes, já não sei de que terra sou, já não sei, sequer, se sou da terra, do ar ou da água. Também a hipótese do fogo não está posta de parte, pelas cores. Vejo peixes cor de fogo, ou fogo em formato de peixes, salamandras de terra em meio líquido. A Galeria, tal como a vejo hoje, é um aquário de sonho, digo, possível num sonho. Nos sonhos, espaço de absoluta estética, porque totalmente desprovidos de moral, mas plenos de ética (uma misteriosa ética trans-humana), tudo é possível. Até um aquário cheio de ar com as paredes decoradas de peixes.

Estes peixes, reconheço-os. Não de um sonho, mas de outro aquário, o Vasco da Gama, onde os desenhos de Pedro Salgado ilustram os calendários e os painéis de identificação. Logo, isto pode não ser a exposição de um sonho, mas é um sonho de exposição. Apesar daquilo a que eu poderia chamar, sem rigor, mas por puro delírio, a forma quase presentificada. Porque é mesmo isso que se pretende: que a representação ultrapasse todos os limites do comum, e apareça como uma quase presentificação. Aqueles peixes, mesmo quando não os visita a cor, só lhes falta, não digo falar, que não serve para a imagem que procuro, mas nadar.

Estes peixes, não seria possível a Magritte legendá-los como “Ceci n’est pas un poisson". Porque o são. O cachimbo de Magritte, por muito que o pareça, até pode não o ser, mas estes peixes são mesmo peixes. Mesmo sem nado, mesmo sem odor, mesmo sem água, mesmo sem pescador. O Padre António Vieira não hesitarei em falar-lhes. E acrescentaria: “Nunca melhor auditório”. ”Desenho científico”, assim se chama o que Pedro Salgado faz. Com formação em Biologia e especialização em ilustração científica, tem desenhado para a Expo, o Oceanário, a National Geographic, selos do CTT, entre outros. Tem uma predilecção por peixes, particularmente os do Tejo. Actualmente ensina em vários estabelecimentos de ensino universitário. E agora está na Galeria Lino António, onde eu dou aulas e onde existe esta Galeria. Todos os dias, várias vezes ao dia, não resisto a entrar no aquário de arte e ciência e aí fico a respirar por uma espécie de guelras que não sabia que tinha, guelras estéticas por onde inspiro peixes que me enchem os pulmões de rigor e beleza. Porque também o corpo, porque também o sangue, porque também os alvéolos precisam da arte como do pão para a boca, como do ar para os pulmões. E a arte está em toda a parte. Que o diga a ciência.

Outras ligações associadas:

Blogue de Risoleta Pinto Pedro: http://www.risocordetejo.blogspot.com/

Página da Galeria Lino António: http://galerialinoantonio.antonioarroio.org/exposicoes.htm

e-vai- plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais: http://www.e-vai.net/

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