sábado, 15 de novembro de 2008


Quantas imagens cabem numa ilustração?













João Fazenda na Galeria Lino António



Não é de palavras que se constrói uma imagem, mas é de imagens que se constrói uma ilustração. Apetece perguntar - Quantas imagens cabem numa ilustração?
Ao trabalhar para a imprensa, ao ilustrador é pedido poder de síntese e legibilidade gráfica, uma imagem que não cabe na realidade, uma ideia que não cabe numa imagem. Umas vezes o ilustrador encontra-a, outras não; é esse o seu jogo e risco. Uma ideia que se confunda com o desenho, que tenha o poder de uma linguagem. As páginas dos jornais das revistas não se prestam a silêncios - estamos em trânsito, e as imagens fazem parte desse motor do mundo que é a informação. Aqui as imagens valem todas as leituras que quisermos fazer menos a da contemplação - elas produzem conteúdo, informam. É verdade que também ilustram, no sentido iluminado, as palavras, mas, longe da simples repetição do texto elas devem dialogar com ele, complementando-se mutuamente. É verdade que às vezes também são só bonecos, imagens bonitas. E nesse caso, quantas palavras vale uma imagem?

São essas páginas a origem destas ilustrações que aqui são mostradas. O seu lugar foi forjado entre textos, compostos nas mais variadas fontes; entre fotografias das mais diversas cores; entre notícias de todos os géneros, da cultura à economia; entre as pressas dos nossos dias. Andaram de metro e de autocarro, de comboio e avião; serviram naquele dia daquela semana e como apareceram, logo partiram. Esta voragem em direcção ao esquecimento e ao caixote do lixo (guardar jornais = pó e bichos) faz parte do acordo tácito proposto ao ilustrador: inventar um dia claro entre a nebulosidade das notícias. E depois desaparecer. O papel amarelo dos jornais serve para nos lembrar que os mesmos são antigos, não vamos nós confundir os dias e as notícias, e também para lembrar que o acordo não está a ser cumprido. Pois.

Ainda bem que há as exposições!

E agora sem rede, sem texto, sem pressas, em papel que não amarela (segundo o fabricante!), e no silêncio da galeria - as mesmas ilustrações. Não sei se sobrevivem mas sempre serve para respirarem um pouco. As imagens também têm muitas vidas.


Autor: João Fazenda

Nota técnica: O conjunto de ilustrações da mostra da Galeria Lino António foi realizado entre 2001 e 2008, e publicado na imprensa portuguesa, nos jornais Público, Sol, Inimigo Público e Combate, e nas revistas Pública, Visão e Magazinartes.

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