quinta-feira, 19 de junho de 2008


A presença dos Livros










As bibliotecas são sempre lugares iniciáticos, misteriosos,
labirintos autênticos e inesgotáveis


in Os Meus Livros, Número 63, ano 6 Maio 2008
Gosto das casas com livros e da alma que eles alimentam. E falar de livros é lembrar a sua presença a ocupar amigavelmente todos os cantos das casas onde eles existem. Não concebo a hospitalidade de uma casa sem a omnipresença dos livros. E não há prazer maior do que ir à estante e folhear um livro, que já não recordamos, do qual temos uma lembrança vaga ou que julgamos ter bem presente. No fundo, os livros fazem parte dos nossos afectos. No entanto, porque os livros vivem, ou não fossem a projecção dos seus autores nas nossas vidas, é normal que quando os relemos, e julgamos conhecê-los, descubramos novas ideias, novas perspectivas, cambiantes diferentes, como se fossem eternamente novos.
As bibliotecas são sempre lugares iniciáticos, misteriosos, labirintos autênticos e inesgotáveis. Os contos de Jorge Luís Borges têm a ver com esses caminhos, encruzilhadas, bifurcações, becos, saídas que nos entusiasmam ou exasperam. As minhas primeiras recordações da biblioteca fantástica do meu avô têm a ver com as Enciclopédias e os Dicionários. Foi por aí que comecei, na tentativa, sei hoje que vã, de procurar as saídas dos labirintos. E lembro-me bem dos sábados, passados até que a luz se desvanecesse, a correr de Herodes para Pilatos nas várias entradas do velho "Dicionário de Portugal", a descobrir os vultos do nosso oitocentismo, a desvendar uma gigantesca Enciclopédia espanhola ou o "Larousse Illustré", a folhear os atlas e os livros imponentes e pesados com as reproduções já um pouco desmaiadas das grandes obras da arte do mundo, nos grandes museus, desde o Louvre aos Ofícios de Florença, passando pelo misteriosos Hermitage...Eram horas esquecidas, em companhia da multidão de mortos que povoavam essa encruzilhada única que era a livraria do meu Avô (biblioteca e livraria eram sinónimos no vocabulário lá de casa).
Penso que o vício dos livros veio no meu código genético. Nunca me senti bem sem eles. E quando há o vício de lidar com livros, tudo o que vem à rede é peixe.
E, a pouco e pouco, depois da História, que havia para todos os gostos (o meu avô era professor de História e Geografia), vinha o território da poesia e dos romances - dos romances, inevitavelmente. Entre duas revoltas e quatro viagens virtuais ou imaginárias (Odisseia, Ilíada, Eneida, Gulliver, Robinson e Júlio Verne) ia a poesia (Camões, Garret, Antero, Cesário, Pessanha...) e aos romances, às colecções completas de Camilo e Eça, sem restrições. Lá estavam todos. E rapidamente pude perceber por que razão Tolstoi era o romancista preferido dessa livraria ordenada e silente. Aos desaparecidos das enciclopédias juntava-se a outra multidão das personagens romanescas:Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, Zé Fernandes, Jacinto, Carlos, Maria Eduarda, Basílio, Luísa...Stendhal confundia-se com Julien Sorel, com Fabrice del Dongo, com Clélia ou Sanseverina. Só Flaubert permitia compreender a ascensão e a queda de Cartago, através de Salambô...
E fica uma enorme saudade dessas aventuras e de quando minha mãe vinha dizer serenamente que era chegada a hora de voltar.
Texto de Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, advogado e professor universitário.

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