quarta-feira, 14 de maio de 2008


Pai do hipertexto confessa-se desiludido com a Net

O filósofo, poeta e investigador Ted Nelson, apesar de ser considerado o precursor da World Wide Web, continua insatisfeito com a Internet.
Considera-se um filósofo e um poeta e sente-se mais próximo do cinema que da informática. O criador do hipertexto veio a Lisboa dizer que não devemos desistir dos nossos desejos
"Toda a gente está à espera que eu morra para poderem dizer como admiravam o meu trabalho. Mas ninguém me apoia." A frase, citação de Orson Welles, serve de epígrafe à página pessoal de Ted Nelson na Web. É fácil perceber que ele a subscreve e há razões para isso.Ted Nelson é considerado universalmente como um dos visionários mais estimulantes do planeta, um dos inventores mais inovadores e um dos pais da World Wide Web. Mas, apesar disso, tenta há quase 50 anos concretizar um projecto grandioso que muita gente pensa que poderá revolucionar o mundo sem ter tido senão pequenos êxitos e apoios esporádicos. O que é tanto mais estranho quando se sabe o título pelo qual o investigador costuma ser apresentado: Ted Nelson é "o pai do hipertexto", um conceito que criou em 1963 e que está na base da World Wide Web de hoje.Nelson, nascido em 1937 nos EUA, estudou filosofia, fez um mestrado em sociologia em Harvard e o doutoramento no Japão, na Universidade Keio, sobre Filosofia do hipertexto, mas confessa que sempre teve dificuldade para se identificar profissionalmente. A classificação mais próxima do seu coração é a que foi usada pela ministra da Cultura francesa Catherine Tasca, quando o condecorou com a Legião de Honra, em Março de 2001: "um filósofo e um poeta." Na conferência que Ted Nelson proferiu anteontem na Universidade Atlântica, em Barcarena, (antes disso tinha estado em Lisboa numa mesa-redonda sobre Estratégias para a Sociedade do Conhecimento, a convite do programa europeu Interreg) disse que aos 22 anos se considerava "filósofo e realizador de cinema" e que hoje prefere dizer-se um "humanista de sistemas". Mas vai repetindo que não é um tekkie mas sim um "media guy" - o pai era realizador de cinema e a mãe actriz - e que o que o preocupa são as interfaces.O que quer este homem, hoje investigador convidado do Internet Institute da Universidade de Oxford? Quer um sistema que permita a toda a gente ter acesso a toda a espécie de documentos - textos, vídeo, música -, usá-los, modificá-los, anotá-los, publicá-los, usar pedaços... Mas isso não é a Web? Pergunte-se e Nelson espuma. Para se acalmar e responder em tom contido: "A Web é fantástica, eu passo quatro horas por dia na Web, mas a Web só permite fazer uma pequena parte das coisas que desejamos." O quê? Não se pode abrir um texto e fazer umas notas à margem, se um texto incluir uma citação de outro não posso ir ver o documento original (só se tiver feito previamente um link à mão), etc.A visão de XanaduFale-se de hipertexto na Web e Nelson pode irritar-se. O "seu" hipertexto, o verdadeiro hipertexto, aquele que ele inventou em 1963, que descreveu num artigo em 1965, que ele tem andado a vender desde então, não é composto por estes miseráveis links de sentido único que existem no HTML, que existem nesta triste Web: os seus links - que, conforme as funções, ele chama "transclusões" ou "flinks" ou "clinks" - permitem ligações de dois sentidos, para saber que links existem para o documento que eu estou a ler; permitem fazer links de uma palavra para "n" sítios diferentes e muitas mais habilidades.A conferência que Nelson deu em Barcarena, para uma pequena sala apenas meio cheia, foi dedicada a um novo tipo de bases de dados a que chama "estruturas Zig Zag" (ou "zizi structures"), mas não sem antes apresentar a filosofia geral da sua visão, Xanadu, um projecto nascido em 1960 e que tenta financiar desde sempre com reduzido êxito. O que é Xanadu? A visão ocupa todos os textos de Nelson e não é simples. À primeira vista parece que fala da Web - é um sistema onde todos os documentos podem ser acedidos, modificados, fundidos, onde todos os documentos são hipermédia (outro conceito de Nelson), onde som e vídeo se misturam com gráficos e texto. Mas quando se aprofunda um pouco o conceito... tudo muda e percebemos como a Web é limitada: Xanadu é o nosso sonho tornado realidade, em Xanadu tudo é possível.Cada documento desta nova Web pode ser modificado por toda a gente, mantendo todas as versões possíveis; quando se faz copy-paste de um parágrafo de um texto para outro isso cria um link permanente para o texto-fonte; as imagens ou os vídeos têm a dimensão que queremos quando os vemos (as fotos têm um "tamanho" no papel, mas os computadores não são papel e não precisam de ter essa limitação); e se pode usar todo o material que quisermos mesmo que esteja protegido por copyright porque, quando usamos um pedaço de um texto com direitos, fazemos um micropagamento (outro conceito de Nelson) ao seu autor sem necessidade de negociação prévia. É a total liberdade de criação e a justa compensação aos criadores. É um mundo onde nada se perde, onde tudo está ligado a tudo, onde a citação é sempre possível e sempre atribuída e onde a colagem e a recombinação são ubíquos.Os seus desejos para os computadores são simples: Nelson não acha aceitável que seja preciso um programa para abrir um texto e outro para ver um filme. Ou que não se possa escrever nas margens do livro que se está a ler no ecrã. Ou que as versões não coexistam todas. Ou que um ficheiro possa ter metadados mas uma parte de um ficheiro não. Nelson não aceita que, nos computadores, as páginas estejam atrás de um vidro. Tudo o que é possível no mundo real tem de ser possível na Web (ups!, em Xanadu) e muito mais. O mantra é simples: é o computador que tem de se adaptar aos desejos das pessoas e não as pessoas ao computador.Xanadu pode ser um conceito difícil de concretizar, mas uma coisa é certa: quando houver, eu quero.

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