segunda-feira, 5 de maio de 2008


Do arco à harpa, nem útil nem fútil

Ainda sobre a instalação na Galeria António Arroio, um texto

de Risoleta Pinto Pedro


Antifonia, de Pedro Ferreira

Tem madeira, metal, fio e placa transparente. E silêncio. E altura. No sentido musical. E profundidade. No sentido misterioso.

Um paradoxo, diria um ocidental, um haiku visual, diria um oriental.

Esta peça não pensa nem faz pensar, mas faz sentir o inefável, o impossível, o inexprimível, o sonho louco de uma criança ou de um deus particularmente criativo e “afuncional”. É a pancada do mestre no ombro do meditador, é a paragem busca e inesperada no imparável fluxo da consciência.

Alice, a do país das maravilhas, já não se surpreenderia perante um objecto destes. Entre o impropério e a admiração, descobrir-lhe-ia uma inédita função. Uma criança descobriria ainda outra. Um sonhador encontraria inúmeras possibilidades, depois de elevar o objecto até uma nuvem feita de um material de futuro para este objecto sem tempo, sem espaço e sem função. Mas não sem utilidade. Os objectos não funcionais são os mais úteis porque são os mais amplos, os que mais estendem a imaginação, essa arte dessa outra inimitável dupla que é a mente e o coração.

Entra-se no espaço da instalação e olha-se o objecto familiar. Não sabemos de onde o conhecemos, mas conhecemo-lo.

Os objectos impossíveis existem algures num arquivo futuro de objectos improváveis absolutamente grávidos de possibilidades.

Esta harpa silenciosa cria espaço dentro de quem a olha, uma espécie de partitura muda.

E algo muda.Este arco retesado que não dispara, ampara o silêncio das cordas que não tocam. Assim nos tocam, pelo lado do inexplicável.

Apenas um poema de Hermes poderia aproximar-se de o dizer.

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